É interessante considerar a observação de Perls no ‘Abordagem Gestál-tica e Testemunha Ocular da Terapia’ (mencionado livremente) de que qualquer aspecto de uma psicologia ou psicoterapia é acessível a qq pessoa de inteligência mediana, simplesmente pq se trata deexperiência humana, acessível a qq humano... Qualquer esoterização é precária e perversa... A GT é uma abordagem de privilegiamento da vivência estéti-ca, est-ética, o estético próprio e comum a qualquer humano, uma est-ética do devir e da ação. Ou seja, aponta para o privilegiamento do mo-do existencial de sermos, que é o modo de sermos da vivência do possí-vel, e do seu desdobramento no que entendemos como ação – ação contactante --, como ética de vida, est-ética, e como metodológica hu-mana natural, ontológica, de superação da dimensão do acontecido em nossas vidas.
O estético, existencial, é reconhecida, e reconhecivelmente, um modo de sermos não teorético, onde não vigora o conceitual, da mesma forma em que não vigora os modos comportamental e pragmático de sermos. Mo-do de sermos, o est-ético, existencial, da compreensão, da implicação; excludente, em sua vivência, do modo de sermos da ex-plicação -- teoré-tico. Com o qual se alterna, da mesma forma que alternam-se com o modo pragmático de sermos.
No estético, inevitavelmente, a inerência do dialógico e da dialógica. Na implicação com o possível e com o devir, com a performação da vivência compreensiva da ação, por parte de cada um. A inerência, eminente-mente, da dialógica inter humana entre o que chamamos de profissional e de cliente. Que permite a potencialização da ação de cada, e da inter-ação deles. A dimensão da intencionalidade e da dialógica é inerente à concepção e metodológica da GT. Dialógica inter humana, privilégio da dialógica inter humana, na relação terapeuta (psicólogo) – cliente, ou autoritarismo... Não tem meio termo...Históricamente, e conceitualmen-te, a GT sofre influências, em suas raízes, dentre outras, do Expressio-nismo; tanto no Teatro Expressionista de Perls, com Max Reinhardt, como nos trabalhos de expressão corporal de Laura Perls. Os Perls fo-ram profundamente influenciados por Martin Buber – Laura, por muito tempo, foi aluna dele. Recebem importantes influências da Psicologia da Gestalt da tradição da Fenomenologia de Brentano, através das concep-ções de Kurt Goldstein e de Max Wertheimer – Perls foi assistente de K. Goldstein. De Nietzsche receberam tb uma influência fundamental, a-través do espírito da época no meio artístico e intelectual da Berlin an-terior à segunda guerra, através de Martin Buber, e através dos trabalhos de Otto Rank e W. Reich. Há ainda, dentre outras, a influên-cia da filosofia oriental.
A fenomenologia fenomenológico existencial hermenêutica de M. Hei-degger não é uma raiz da GT. Mas, vindo da tradição hermenêutica, e constituindo uma hermenêutica especificamente existencial, além de provir de fontes fundamentais da inspiração de Perls, como o perspecti-vismo nietzscheano e o empirismo fenomenológico de Brentano, além da hermenêutica de Dilthey, pode oferecer interessantes possibilidades de interpretação e de desdobramento das inspirações dos Perls.
É necessário precatarmo-nos com relação à tendência inicial de objetivi-zação e de pragmantização da inspiração fenomenológico existencial da concepção e metodológica da GT, da qual Paul Goodmann é a referência principal. A GT surge no meio da ‘experimentação’ expressionista, en-tendida na dialógica inter humana, de cunho fenomenológico e existen-cial (no sentido genérico). Originalmente o meio primitivo nos EUA não entendeu o sentido fenomenológico do empirismo da GT, confundindo-o com o empirismo objetivista, pragmático. Da mesma forma que não en-tendeu o sentido existencial da ‘experimentação’ perspectivativa, próprio à gaya ciência nietzscheana. Daí a tentativa, originária em Paul Good-mann, de dar um cunho pragmático, objetivista à GT. Com a perda, em sua metodológica dialógica, exisencialmente empírica, e igualmente ex-perimental. Este influência vem para o Brasil com a GT que recebemos dos EUA. Mas uma devida limpeza vem sendo progressivamente feita em concepção e método. Aliás, não só aqui. Nos EUA tb. Agora.
Para a perspectiva da GT, seguindo o perspectivismo nietzscheano, a verdade é perspectivativa, experimental (no sentido existencial). A ver-dade se dá na ação, na experimentação, fenomenológica e existencial: “o núcleo da verdade é a ação (Perls, F.); “qualquer problema humano só pode ser resolvido experimentalmente (Perls, F.). O terapeuta, o clínico, não pode agir, não pode experimentar pelo cliente; não pode interpretar (fenomenológico existencialmente) pelo cliente. Só o cliente pode faze-los. Cabe ao terapeuta, psicólogo criar as melhores condições para que ele o faça. No âmbito dadialógica inter humana, e inter ativa, entre eles. O moralismo, e o autoritarismo, é tomar uma perspectiva da verdade e absolutizá-la. Teoricamente e metodologicamente, desde os seus pri-mórdios, a GT abriu mão do moralismo, em privilégio da poiética, da estética, da criação.
O psicólogo, o terapeuta, ..., só pode falar, e falar sobre, e interpretar a sua própria experiência. Nunca, própria e devidamente, a e sobre a ex-periência do cliente. O terapeuta não pode experienciar, experimentar, agir, interpretar, pelo cliente – no não-lugar do cliente. Como observa Buber, em sua dialógica inter humana, ‘só podemos conhecer o nosso caminho ao encontro com outro ser humano’. O caminho dele nos é da-do apenas no encontro, pela expressividade dele – dialógica. Em GT não somos especialistas na vida, nem no encaminhamento da vida, ou da vivência, do cliente. Nossa competência para tal não é efetiva. Busca-mos otimizar a nossa capacidade para a ação no âmbito de uma dialógi-ca inter-humana.
É esdrúxula a idéia de que um ‘sistema de contatos’ possa ser descrito (sic). Um sistema de contatos não pode ser descrito, apenas atualizado. Só pode ser ‘ação’, na dialógica. Eventualmente inter huamana. Preci-samos nos apropriar criativamente do ‘Gestalt Therapy’ de PHG. Con-textualizando-o adequadamente. Apropriando-nos das importantes inspirações e perspectivas que ele traz. Mas sem atribuir-lhe um valor, ou conteúdos teóricos, que ele não tem. Saúde em PHG é a identificação com o ‘self’. E alienação do não ‘self’. O ‘self’ é o sistema de contatos num momento dado. Tudo isso precisa ser desdobrado, está apenas em germe em PHG. É nossa vivência e teorização que pode desdobrar. E, sempre: mangas em mangueiras, jacas em jaqueiras...
E, claro, que tudo isso só em meu nome, e de quem quiser, ainda que as inspirações sejam diversas. Provisório, e precário, claro. Abraços a todos que participaram da conversa. Emespecial para o Marcos e Rosa-ne, que, desde o comentário sobre a tradução do texto do Cooper, parti-ciparam com mais intensidade, e com a inteligência, preparo, e bom astral, que lhes são peculiares.